“Mesmo assim serei feliz, bem feliz”. Foi com os versos de Carinhoso que começou Beautiful Day – o momento mais emocionante do show pra mim. Até ali, o show estava muito bom, mas foi ali que começou a catarse, a emoção verdadeira, o diálogo da banda comigo. Como foi incrível ouvir Bono dizendo “serei feliz”, e emendando com “The heart is a bloom...” Beautiful Day é a minha música, cálida e serena, gentil e libertadora, e se o show fosse só aquele instante já teria valido a pena.
Foi meu segundo show do U2. Há cinco anos eu também estava lá no Morumbi, em 20 de fevereiro, deslumbrado. Agora, dia 9 de abril, estava lá eu novamente, esperando na imensa fila, aguardando horas pelo começo do espetáculo. Diferentemente de 2006, desta vez não torramos no sol, pois o céu ameaçava um temporal, o que fez a alegria dos vendedores daquelas capinhas de chuva vagabundas.
Desta vez eu estava num grupo de oito pessoas: eu, minha noiva Camila, o amigão Tiago, a cunhada Laís e os amigos Luís, Amélia, Júnior e Carol. Quatro pessoas de Brasília e quatro pessoas de Santo Antônio do Monte, em Minas. Chegamos às 3 da tarde e já pegamos a fila lá longe. De fora do estádio avistávamos a pontinha do palco, e já imaginávamos o que nos aguardava. Como meu ingresso era de outro portão, tive que me separar deles na entrada, e fiquei sem saber se olhava para o fantástico palco, a incrível Garra, ou se os procurava. Lá estava eu diante daquele palco do qual tanto já tinha ouvido falar, aquele palco gigantesco, realmente embasbacante.
Não demorou para achar minha turma, felizmente, e ficamos pertinho da perna esquerda dianteira, num lugar que estava curiosamente marcado por um caranguejo pendurado logo atrás da cerca que nos separava do inner circle.
E não é que recebo uma mensagem no celular do amigo Elias, de Samonte, dizendo que estava no inner circle? E lá estava ele, facinho de identificar: alto e de chapéu de palha, no meio da galera. Acenamos pra ele, mortos de inveja e felizes por termos um de nós naquele lugar privilegiado.
A espera foi muito longa. Até ensaiamos uma adedanha pra matar o tempo, mas desistimos. Sentamos no chão demarcando lugar, vizinhos de uma turma de Pernambuco e de outro grupo que estava jogando baralho. O tempo todo era um “dá licença”, “xeu passar, por favor”, de gente indo ao banheiro, buscando cerveja, mas era do jogo, a gente também fazia isso. Dei uma volta pelo estádio e encontrei outras pessoas de Samonte – e minha noiva já tinha avistado mais alguns, na entrada do estádio. Eta mundo pequeno, sô!
E as horas não passavam.
As arquibancadas se encheram lentamente. O vento frio começou a soprar e todos vestimos as capas de chuva. Os espaços vazios na pista iam sumindo e ia ficando cada vez mais apertado. Algumas pessoas começavam a se levantar, e de repente todos tivemos que ficar de pé para assegurar nossos lugares. Eram umas 6 e meia da tarde e sabíamos que já não seria mais possível sentar nem sair dali pra nada.
Aguentamos, o tempo passou e finalmente começou o show do Muse. E junto com ele, a chuva. Era uma chuva leve, felizmente, que as capas suportaram. A banda é muito melhor do que o Franz Ferdinand, que abriu o show de 2006. Mas não me agradou muito o repertório: das que eu gosto, só tocaram Starlight. Deixaram Undisclosed Desire de fora, o que é quase imperdoável. O som também parecia estar um pouco alto demais, ferindo um pouco os ouvidos. Mas durou só uma hora, ou nem tanto.
Acabou Muse e apareceu no telão aquele reloginho irritante e fascinante. Marcava oito horas, mas eram nove. E havia mais algo de errado com ele, pois estava indo rápido demais, o que percebemos depois. Estava fazendo dois minutos por um. E depois três, e ia acelerando aos poucos. Deu meia-noite no relógio, e ainda não eram nove e meia na verdade. O ponteiro das horas caiu e o dos minutos começou a passar e a arrancar os pinos. O relógio todo se desintegrou.
“Quais quais quais quais quais quais! Quaiscaligundum quaiscaligundum quaiscaligundum!” A inusitada Trem das Onze pegou todo mundo de surpresa. E o público gostou e cantou junto. E então começou a triste história do major Tom, na Space Oddity de David Bowie. O show ia finalmente começar. E aí, respeitosa, a chuva parou.
Eles entraram com as luzes já acesas, ao som de Even Better Than the Real Thing e botaram todo mundo pra pular. O som estava estranho, agudo demais, mas ninguém se importou. Emendaram com I will Follow e a energia aumentou ainda mais. Veio então Get On Your Boots (uma música que não me agrada, mas que é muito boa pra agitar). Magnificent serenou a galera, já com o som perfeito e Mysterious Ways retomou o pique, que explodiu novamente com Elevation. Vez por outra eles subiam pelas passarelas, passeavam pelo círculo, chegavam perto da galera. Dali eu podia vê-los bem, muito diferente do que ocorrera em 2006 quando eu fiquei mais atrás.
Veio então Until the End of the World e a famosa cena das passarelas que se encontram, Bono em uma e The Edge em outra, e elas se aproximando. Em seguida, Bono apresentou a banda, fazendo uma esquisita comparação dos integrantes com sabores de pizza: ele próprio era de pepperoni; Adam era de banana; The Edge, de jaca (!) e Larry, bem, ele não era pizza nenhuma, já que não podia ter nem queijo nem molho de tomate. Poderia ser, no máximo, uma “pizza bonita”.
Veio então, num momento arrepiante, I still havent’t found, cantada quase até a metade pelo público num coro imenso (eu sabia que haveria algum jornalista chato que reclamaria desse momento, e estava certo...). Como deve ser fantástico ouvir 90 mil pessoas cantando seus versos... Foi a primeira canção de uma sequencia memorável.
Depois disso, a bela Stuck, dedicada a Michael Hutchence (o vocalista do INXS, que se suicidou). E, enfim, ela. Beautiful Day. Ah, Beautiful Day...
In a Little While teve o dueto com o astronauta, e aí entendemos melhor a referência a Major Tom, Space Oddity e tudo isso. Bono emendou com Miss Sarajevo, e o telão mostrava cenas do clipe da música, com imagens da guerra na Bósnia, pessoas correndo... Me vêm à mente as cenas de Tasso da Silveira...
A sequencia incrível começada com I still haven’t found é concluída com outra das minhas favoritas: City of Blinding Lights. O telão se expande pela primeira vez, brilhando com luzes psicodélicas.
Vem então Vertigo, colocando todos pra pular novamente. E Crazy Tonight, divertidíssima, bem pra cima, num arranjo genial que permite a Larry se levantar da bateria e passear pelo círculo junto ao público tocando um atabaque – e ele parecia feliz da vida.
O telão fica todo verde. A bandeira de algum país islâmico é projetada. Ouço Bono falar alguma coisa sobre Abidjan (capital da Costa do Marfim). E começa aquela que é provavelmente o último hino do rock: Sunday bloody sunday. E então uma surpresa: “Rejoice! Rejoice!” Era Scarlet, música antiquíssima que eu nunca tinha visto em nenhum show.
Veio então Walk on, com um momento belíssimo: a homenagem a Aung San Suu Kyi, a líder birmanesa que ficou anos e anos presa em seu país. Bono falou sobre ela, explicando quem era a mulher e ao final da canção, várias pessoas subiram ao palco carregando lanternas com o símbolo da anistia internacional. O efeito visual das chamas era incrível. Eles agradecem, as luzes se apagam. Não acabou.
Desmond Tutu, o arcebispo anglicano da África do Sul, ganhador do Nobel da Paz, faz um discurso sobre mudar o mundo por meio da unidade. É One que começa, solene, sedutora. Logo na sequencia, tudo fica vermelho com a alegre Where the Streets Have no Name. Nova escuridão.
Uns etezinhos esquisitos aparecem no telão, comentando que já estão com os pés doendo (nem fala!) e são atropelados pela nave espacial da Garra. O pequeno astronauta de Zooropa aparece e diz alguma coisa. E o microfone vermelho de leds surge, ao mesmo tempo em que Bono aparece com a jaqueta de leds (eu quero uma!). Começa Hold me Threw me Kiss me Kill me, e Bono pula, se pendura no microfone pendente, se balança nele. Luzes são jogadas para o alto e focam o céu nublado.
Agora o microfone está azul, um globo luminoso aparece no palco e enquanto eles tocam With or Without You, um espetáculo de luzes toma conta do estádio (sério: é uma cena de sonho: grandiosa, mágica – nenhum vídeo consegue captar).
Eu sabia que Bono ia falar das vítimas. Todos sabíamos. (Havia uma faixa pendurada no estádio falando da tragédia.) Conhecemos U2 a tempo suficiente para saber que eles não iam passar por cima disso. E elas foram lembradas num momento de redenção – Moment of Surrender, quando Bono pediu que as luzes fossem apagadas e as pessoas acendessem seus celulares. Os nomes das doze crianças assassinadas foram exibidos no telão, enquanto todos entoavam a melodia. Sabíamos também que era a última música. Melancólica pela sua letra, pela homenagem que representava ali, pelo fim do show.
Foi uma noite pra se lembrar pelo resto da vida: pelas dores nos pés, pela chuva que começou a cair novamente tão logo o show acabou, pela dificuldade de conseguir voltar pro hotel, mas, acima de tudo, pelo espetáculo emocionante, belo, engrandecedor. Pela honra de ter estado ali, de tê-los visto, de ter participado daquele momento. Saímos de lá roucos, exaustos, famintos. Mesmo assim, saímos felizes, bem felizes.






